Se você abrir o Spotify hoje, ligar o rádio ou rolar o feed do YouTube por mais de cinco minutos, você verá uma enxurrada de anúncios impulsionados, uma coisa é certa: você vai ser bombardeado por um hit sertanejo. A sensação que temos, muitas vezes, é a de que o Brasil inteiro acordou, em um consenso absoluto e mágico, decidindo que aquela música específica é a melhor coisa já produzida na semana.

Mas até que ponto esse "sucesso" é uma escolha genuína do público e até que ponto ele é um produto enfiado goela abaixo pela força bruta do capital?

Para entender a hegemonia do sertanejo contemporâneo, precisamos parar de olhar para a música como pura expressão artística e começar a encará-la como o que ela realmente é nesse contexto: um braço publicitário do agronegócio e da indústria cultural.

O Novo 'Jabá': A Colonização das Plataformas Digitais

No passado, a indústria fonográfica operava na base do jabá clássico malas de dinheiro pagas a diretores de rádio para que a música de um artista tocasse incansavelmente até grudar no cérebro do ouvinte. Hoje, o meio mudou, mas a tática apenas se sofisticou. O dinheiro agora veste a roupa limpa do "investimento em marketing digital".

A injeção de dezenas de milhões de reais não acontece por acaso. Ela opera em um ecossistema perfeitamente orquestrado:

  • Compra de Espaço em Playlists: Estar nas listas de "Top 50" ou "Novidades da Semana" não é apenas uma questão de curadoria artística. É um latifúndio digital onde o espaço é comprado a peso de ouro pelas grandes produtoras.
  • O Monopólio da "Trend": Milhões são despejados em agências de influenciadores. Dezenas de TikTokers com milhões de seguidores recebem cachês gordos para fazerem a mesma dancinha ou usarem o mesmo áudio no mesmo dia. Cria-se a ilusão de que a música "viralizou" organicamente, quando, na verdade, foi uma campanha publicitária caríssima e altamente direcionada.
  • Tráfego Pago Agressivo: Antes do clipe sequer bater um milhão de visualizações, ele é empurrado como anúncio obrigatório (o infame ad não pulável) para milhões de usuários no YouTube. O número de views infla artificialmente, acionando o algoritmo para recomendar o vídeo ainda mais.
"A organicidade na internet, quando se trata da grande indústria, é o maior mito contemporâneo. Você não está escolhendo o que ouvir; o algoritmo e quem paga por ele estão escolhendo por você." - Rodrigo  

A Trilha Sonora do Capital (e o apagamento da cultura)

O sertanejo deixou de ser a música do homem do campo, das modas de viola e da vivência caipira, para se tornar a trilha sonora oficial do latifundiário, do dono do agronegócio e do capital financeiro. É o chamado "Agropop".

Quando produtores e investidores colocam caminhões de dinheiro em um novo cantor universitário (geralmente jovem, branco, dentro de um padrão estético altamente palatável para a classe média), eles não estão apenas vendendo um show. Eles estão vendendo um lifestyle. Estão higienizando a imagem do agronegócio e empurrando uma estética de "simplicidade fabricada". É o cantor que usa bota de grife de cinco mil reais cantando sobre beber cerveja barata no boteco de chão de terra, criando uma falsa ponte de identificação com a classe trabalhadora.

O Custo da Hegemonia

Qual é o problema de tudo isso? O problema é a assimetria. Quando um único gênero musical é sustentado por um império financeiro que pode literalmente comprar o algoritmo, os outros gêneros são esmagados.

O rap, o funk, o tecnobrega e a MPB independente precisam, de fato, contar com a movimentação orgânica de suas bases e comunidades para ascender. Eles disputam a atenção do público com uma faca de serra, enquanto a indústria sertaneja entra na arena pilotando um trator.

O que consumimos hoje nas paradas de sucesso não é necessariamente o que o Brasil tem de melhor, nem mesmo o que o povo naturalmente escolheria. É o resultado do que acontece quando o capital descobre que pode industrializar a arte e comprar o nosso imaginário. O topo das paradas não é um reflexo do gosto popular; é o recibo de uma transação milionária.



Nota do Autor: "A fagulha para este artigo não surgiu de uma epifania teórica, mas de uma exaustão puramente algorítmica (em poucas palavras, um excesso de anúncios, empurrado.). - Rodrigo 

 

Nos últimos dias, ao tentar navegar pelo YouTube, me vi refém de uma metralhadora de anúncios: dezenas de clipes sertanejos empurrados goela abaixo como propagandas, muitas vezes impossíveis de pular. Com o olhar de quem atua diariamente na curadoria de conteúdo digital, foi impossível não me questionar onde termina a nossa escolha orgânica e onde começa o a 'indústria agro' comprando à força. Esse incômodo prático foi o que me motivou a destrinchar a verdadeira máquina por trás dos hits que dominam o país." - Rodrigo

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