O Pecado do Espelho
Olhar-se no espelho depois de ler "O Retrato de Dorian Gray" torna-se um ato perigoso. Oscar Wilde não nos aterroriza com monstros sobrenaturais, mas sim com o monstro incrivelmente sedutor da pura vaidade. Todos queremos permanecer intactos, brilhantes, imaculados. A tragédia de Dorian é a tragédia do Instagram antes deste existir: a obsessão suicida por preservar a casca enquanto a alma gangrena trancada a sete chaves num sótão distante.
A Estética do Veludo e do Veneno
O texto de Wilde é paradoxal: de um lado, o requinte dos salões aristocráticos londrinos, o cheiro de charutos caros e os aforismos brilhantes e irónicos do maquiavélico Lord Henry. Do outro, a putrefação grotesca da tela a óleo que absorve todas as vilezas morais do protagonista. A estética é de um decadente glamour gótico, onde as pérolas estão sempre manchadas de sangue invisível.
"Não existem livros morais ou imorais. Mas a podridão moral, quando perfumada, é a armadilha mais sedutora de todas."
A Epifania
Wilde foi castigado pelo seu próprio génio e pela sua orientação sexual numa sociedade hipócrita, mas a sua obra prevalece como a crítica mais venenosa e elegante já feita à adoração cega das aparências. A beleza eterna é, no fim das contas, a mais hedionda das maldições.