O Espelho Quebrado da Identidade
Como escrevo sobre mim mesma sem que as palavras derretam no papel? Em "A Paixão Segundo G.H.", esmago uma barata na porta do armário do quarto de empregada e percebo que toda a estrutura da minha vida burguesa e limpa não passa de uma casca fina. O ato de levar a massa branca daquele inseto à boca é a comunhão profana máxima: engolir a matéria pura, pré-histórica, para conseguir finalmente vomitar a ilusão de quem eu achava que era.
A Forma do Vazio
A narrativa não avança, ela roda em círculos ao redor do silêncio. As palavras tateiam no escuro, tentando agarrar algo que não tem nome. A estética é a de uma sala de estar impecavelmente limpa onde subitamente se percebe que o ar acabou. Cada vírgula é uma vertigem. Não há enredo, há apenas a desintegração brutal de uma mulher que ousou olhar para a própria sombra e descobriu que a sombra não piscava de volta.
"A vida me é, e eu não entendo o que digo. Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra."
A Epifania
Não há conforto nesta leitura, apenas o rasgar do véu. Perceber que o sagrado não está nas catedrais, mas sim no asco, na matéria viva, no corpo do inseto esmagado, é a epifania mais assustadora que a literatura brasileira já ousou confessar em voz alta.