O Sorriso Cadavérico do Bruxo

Ao ler as Memórias Póstumas, senti um arrepio incômodo na nuca: Machado está morto há mais de um século e, ainda assim, continua zombando da minha presunção. Brás Cubas é o espectro cinicamente perfeito da nossa mediocridade. Não transmitiu a nenhum ser a miséria da nossa condição, e fez disso uma glória podre. A genialidade machadiana é fazer-nos rir das nossas próprias tripas expostas no chão.

A Estética do Tédio Aristocrático

A prosa é navalha untada com mel. Ele desenha a sociedade brasileira aristocrática, racista e hipócrita com capítulos que começam e terminam antes mesmo de respirarmos. A linguagem brinca com o leitor; interrompe a narrativa, digressões vadias que provam que o controle é todo dele. É uma estética de puro deboche refinado vestido de casaca.

"Nós somos vermes elegantes rastejando sobre o lombo de um cão morto, e Machado de Assis é o cientista que nos estuda com um monóculo divertido."

O Veredito Existencial

O maior de nós. O bruxo do Cosme Velho aniquilou o romantismo não com choro, mas com um bocejo e um dar de ombros mortal. Ele provou que a vaidade humana é o teatro mais ridículo e fascinante que o nada tem a oferecer.