O Porco, O Divino e a Carne

Ler A Obscena Senhora D exige coragem para nos sujarmos. Hilda Hilst cansa de implorar atenção ao divino através do sagrado e decide tentar através da lama. A sua escrita lateja tesão, decadência física e um desespero místico que a teologia convencional não suportaria ouvir sem corar. Eu fechei o livro sentindo o suor na nuca e a alma completamente revirada do avesso.

A Estética do Cio Gótico

Não há vírgulas no lugar certo quando o pensamento está em ebulição. A prosa poética de Hilda choca pela transição abrupta entre o escatológico e o sagrado. A palavra nua, os fluidos corporais misturados com interrogações ao vazio de Deus. A estética da Casa do Sol é gravada num gravador velho, captando vozes do além e misturando-as com o uivo dos cães.

"Hilda fez do próprio corpo uma antena para captar o ridículo de Deus. E Deus, assustado, nunca lhe respondeu."

O Veredito Existencial

Muitos a chamaram de pornográfica; poucos perceberam que a sua pornografia era apenas o grito de quem tentava desesperadamente fazer a vida ter sentido. A escritora mais livre, louca e imensamente lúcida que o nosso solo já pariu.